Brasil

Como a pandemia afetou o terceiro setor e o que esperar para 2022

Especialista traz 5 previsões desse mercado para o ano que vem

Os anos de 2020 e 2021 foram atípicos para todos os mercados, e para o terceiro setor, não foi diferente. Em 2020, 60% das OSCs deixaram de atender ou oferecer algum serviço em função da Covid-19 e as condições de isolamento. Por outro lado, uma onda de solidariedade se instalou no país durante a pandemia. Segundo o Monitor das Doações Covid-19, organizado pela Associação Brasileira dos Captadores de Recursos (ABCR), o Brasil registrou o recorde de doações no último ano, com mais de R$ 7 bilhões doados, entre pessoas físicas e jurídicas.

 

Diante desse cenário, que mescla dificuldades e oportunidades, Edmond Sakai, Diretor de Relações Institucionais da organização humanitária Aldeias Infantis SOS no Brasil, traz 5 previsões do mercado de terceiro setor para 2022.

 

Foco em sanar os efeitos secundários da pandemia

Em 2020, o foco das organizações sociais foi voltado à saúde, com campanhas para arrecadar recursos para compra de EPIs, testes de Covid, álcool gel e até respiradores. Já em 2021, os impactos socioeconômicos ficaram mais evidentes, tendo como maior representante o aumento da insegurança alimentar, que alcançou cerca de 19 milhões de brasileiros, de acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

Com isso, até mesmo as OSCs de outros segmentos, como esporte e educação, realizaram campanhas para doação de cestas básicas, voucher alimentação e outras formas de alimentar a população. Para Edmond Sakai, ao analisarmos essas mobilizações dos últimos anos, perceberemos uma mudança nas estratégias voltadas às consequências secundárias. “Os efeitos da pandemia não vão ser sanados facilmente, então, provavelmente 2022 ainda será um ano com foco na alimentação, no emprego e na educação, que foram setores fortemente abalados”, explica.

 

Captação de recursos digital

Segundo Edmond, a pandemia veio para mudar de vez a maneira de captar recursos. As mobilizações virtuais com “vaquinhas” virtuais, PIX e demais meios de pagamento digitais tomaram à frente em 2021 e seguirão em 2022. Para o especialista, quem não acompanhar esse movimento ficará para trás. “Pesquisas mostram que a internet é uma das maiores ferramentas para engajar pessoas a participarem de arrecadações. Com isso, não faz sentido captar a atenção dessa pessoa de forma virtual e não ter os meios para adquirir a sua doação pela mesma plataforma. É importante que essa contribuição possa ser feita da forma simples e confiável para o doador”, conta.

 

Para Sakai, outro ponto de destaque é consolidação de parcerias com captação de recursos de online. Um dos exemplos de iniciativas como essa é o “Botão Doar” do Mercado Livre, que permite fazer doações diretamente para uma das quatro organizações cadastradas pelo aplicativo de compras. Com isso, quem utiliza a plataforma do Mercado Pago, recurso de pagamento do Mercado Livre, consegue fazer uma doação a partir de R$5,00 de forma rápida e simples. A Aldeias Infantis SOS é uma das organizações escolhidas para receber os recursos da ação.

 

De olho nas eleições

Em 2022, com a eleição presidencial, a política estará em foco. Para o especialista, esse cenário gera instabilidade para todos os mercados e afeta o terceiro setor, gerando um ponto de atenção. “Em ano de eleição, é comum que as pessoas invistam menos e sejam mais cautelosas em relação a dinheiro, por conta da instabilidade financeira. Esse cenário, somado aos efeitos da pandemia, pode ser complexo”, prevê. Como uma alternativa, pode ser interessante fidelizar os grandes e pequenos doadores com histórico de engajamento, gerando esse vínculo mais próximo.

 

Maior disseminação do ESG no Brasil

De acordo com Sakai, em 2020 o ESG (Environmental, Social and Governance – Governança Ambiental, Social e Corporativa) “explodiu”, sendo muito conhecido pelo público. Já em 2021, foi o momento de reconhecer as limitações e aprofundar os debates desse conceito, pensando nos impactos socioambientais das empresas e investimentos de forma realista. E agora, para 2022, a previsão é de uma maior disseminação no Brasil. Para o especialista, apesar dos problemas socioeconômicos, o país possui uma economia robusta, composta por grandes empresas e um mercado financeiro expressivo, que vai precisar ser mais atuante socialmente.

 

“Estamos em um momento em que a conscientização social e ambiental só cresce e, com isso, esses grandes grupos serão cada vez mais cobrados pela sociedade para fazer a sua parte dentro das transformações sociais que o mundo precisa”, explica.

 

Mais projetos para saúde emocional

A pandemia trouxe diversos problemas que podem abalar a saúde emocional da população. O fechamento das escolas, o medo da contaminação, os conflitos familiares causados pela falta de renda e até mesmo o luto vivenciado por tantas pessoas, são alguns dos fatores para o aumento da incidência de depressão, ansiedade, estresse e demais males da saúde emocional.

 

Para Sakai, houve maior visibilidade para essas questões durante a pandemia e a tendência é que essa temática siga em voga. Como porta-voz da Aldeias Infantis SOS no Brasil, voltada para o fortalecimento familiar, destaca o caso dos órfãos da Covid-19. “Muitas crianças perderam seus pais no último ano. Quando se fala em saúde emocional, esse grupo é um dos que precisam ser acompanhados de perto com projetos socioemocionais e a garantia das leis que assegurem um crescimento com acesso à educação, alimentação e demais direitos”, pontua.

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