Segunda, 20 de Setembro de 2021
20 de Setembro de 2021
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Clima entre empresários é de revolta contra Mabel pela politização da Fieg

Ex-deputado federal viola neutralidade da Federação das Indústrias de Goiás e intensifica ataques contra o governo do Estado para ser candidato nas eleições de 2022

É tenso o ambiente interno na Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) com as intervenções na política estadual cada vez mais frequentes do seu atual presidente, o ex-deputado Sandro Mabel, que também acaba de anunciar disposição para se candidatar a governador nas eleições do ano que vem em Goiás.
Como representante classista dos industriais goianos, a Fieg tem obrigação de manter interlocução com o governo do Estado e com as estruturas de poder cuja esfera de decisão diz respeito ao desenvolvimento econômico. Em vez de se propor a esse papel, Mabel assumiu posição de confronto com o governador Ronaldo Caiado, dentre outras autoridades, assumindo a estratégia de ganhar visibilidade graças a ataques e críticas, muitas vezes sem o menor fundamento.
Trouxe desgastes para ele, por exemplo, o anúncio de que uma suposta “área internacional da Fieg” teria localizado um fornecedor asiático para vender vacinas contra a Covid-19 para o governo de Goiás. Ele montou um dossiê e entregou à Secretaria Estadual de Saúde, garantindo que bastaria um contato para que os imunizantes fossem adquiridos. Prudentemente, o governador fez uma consulta à embaixada chinesa (o laboratório seria a Fosun Pharma, sediada na China), que não confirmou a oferta. A empresa, também contatada, respondeu que não tinha disponibilidade de vacinas para vender, a não ser para governos nacionais.
Mabel ficou com cara de tacho. Dentro da Fieg, houve uma quase rebelião com a utilização da entidade para manobras políticas e sem fundamento na realidade. Antes de morrer, vítima do coronavírus, o empresário e vice-presidente da Fieg Antônio Almeida, da Editora Kelps, chegou a liderar um movimento para afastar o ex-deputado do comando da instituição, sob a acusação de desvirtuar as suas finalidades e de buscar proveitos pessoais e políticos usando o cargo de presidente.

Biografia na Wikipédia revela propinas pagas pela Odebrecht

Feridas antigas ainda não cicatrizadas, fruto de uma desavença com o então deputado federal Ronaldo Caiado (na época, integrando o antigo PFL), são as causas da pouca ou quase nada amistosa relação do presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Sandro Mabel, com o governador Ronaldo Caiado (DEM).
Embora seja natural e compreensível que os dirigentes das demais entidades representativas do setor empresarial tenham discordâncias de determinadas ações do chefe do Executivo estadual, nenhum deles cultiva relação tão amarga com o governador quanto o presidente da Fieg, o que gera críticas e reclamações dentro da instituição.
A relação entre Caiado e Mabel azedou a partir de meados do 1º semestre de 1999, quando houve um desentendimento entre eles, motivado por questões partidárias. A partir de uma entrevista de Mabel ao Diário da Manhã sustentando uma determinada posição dentro do partido, houve uma reação dura da parte de Caiado, com áspera troca de acusações na sequência. De lá para cá, a relação entre eles nunca mais voltou a ser como antes.
As incursões de Sandro Mabel na política partidária começaram lá pela segunda metade da década de 80, época em que era considerado empresário de visão moderna pelos métodos de administração que empregava. Funcionários de suas empresas recebiam incentivos além do salário, trabalhavam satisfeitos e moravam em boas casas oferecidas pela empresa. Mais: gratificações por produtividade e colchonetes para tirar um cochilo após o almoço, porque ninguém é de ferro.
Com tudo isso, Sandro Mabel ficou famoso rapidamente e quase todos os partidos políticos buscaram a sua filiação. Mas ele escolheu o PMDB, que estava no auge do sucesso, sob a liderança de Iris Rezende no comando da política em Goiás. Vieram as eleições e ele foi eleito deputado em vários mandatos.
Atenção: Mabel foi sempre um político pautado pelo pragmatismo na forma de encaminhar as questões tratadas e acumulou também um histórico de atitudes consideradas polêmicas, terminando por ser investigado como suspeito de corrupção, conforme consta na sua biografia na Wikipédia.
No site, Mabel é citado como “suspeito de cobrar propina de R$ 10 milhões da Odebrecht para liberar uma obra, em inquérito autorizado pelo ministro do STF, Édson Fachin”. Delatores da empreiteira revelaram ter destinado R$ 50 milhões para pagamento de um grupo de quatro parlamentares, para que auxiliassem a Odebrecht e Andrade Gutierrez a vencer a licitação da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, além de aparar arestas com o governo federal. Mabel era um deles.
O aparecimento de uma ex-funcionária da empresa Mabel – Nilza Ferreira, acho que era esse o nome – no programa eleitoral de um candidato à Prefeitura de Goiânia, em 1992, com um dos braços substituídos por prótese, depois de o original ter sido esmagado na máquina em que trabalhava na indústria do então candidato do PMDB, Sandro Mabel, causou furor. A cena mostrada na TV da moça retirando a prótese do braço era chocante o suficiente para subtrair em uma semana a vantagem de 6 pontos de Mabel nas pesquisas e Darci Accorsi (PT) ganhou a eleição.
Pelo menos em outras duas oportunidades, Sandro Mabel teve motivos para se aborrecer e certamente enfrentar fortes dores de cabeça, ambas ocorridas em 1998. Na primeira, passou um telegrama de solidariedade para o colega de parlamento Sérgio Naya (PP-RJ), que na ocasião tinha a vida devassada, por conta do desabamento do Edifício Palace II, no Rio de Janeiro, construído pela construtora Sersan, do parlamentar carioca. Oito pessoas morreram na tragédia e 150 ficaram desabrigadas. O texto do telegrama chegou às páginas dos jornais e Mabel ficou muito mal na opinião pública por se solidarizar com um empresário desonesto.
Na segunda, ele foi atacado com tapas pelo então deputado federal Orcino Gonçalves, do PMDB de Goiás e seu colega de bancada, no salão verde que dá acesso ao plenário da Câmara, em Brasília. Conforme registros nos jornais da época, foi por volta das 18h30 do dia 2 de junho de 1998 que os dois começaram a discutir. Orcino deu um forte empurrão em Mabel, que caiu de quatro, tudo filmado por câmeras de televisão. O motivo: uma suposta “cantada” que Mabel teria passado à sua esposa. Por conta desse episódio, Mabel desistiu de se candidatar à reeleição.

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