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COVID-19: após prefeito flexibilizar, número de casos em Aparecida cresce 217%

Município triplicou número de casos após flexibilização amparada em decreto assinado pelo prefeito Gustavo Mendanha, que entrou em vigência no dia 4 de junho. Imagem de feira do município viralizou pelo país

Da Redação

A situação não poderia ser pior para os moradores neste momento de guerra contra a pandemia: Aparecida de Goiânia aparece em 3º lugar dentre as 10 cidades com maior número de casos confirmados de Covid-19. 

A expectativa, segundo projeções de especialistas da Universidade Federal de Goiás (UFG) e médicos que atuam na linha de frente, é que a situação deve tornar-se aguda devido ao abrandamento das regras de isolamento propostas pelo prefeito Gustavo Mendanha (MDB) no começo de junho.  

Mesmo com intervenções tardias para corrigir os erros (como o escalonamento de comércio e mesmo um lockdown), o município pode ter a ampliação de mortes e casos. A velocidade da doença já é inalcançável: chegou a diversos lugares. Jovens, muitos deles aglomerados em distribuidoras de bebidas, o mais preocupante nicho de vítimas.   

O município está atrás apenas de Goiânia, que é uma metrópole ainda maior em complexidade, e de Rio Verde – com características econômicas diversas do município vizinho da Capital. A população aparecidense está preocupada com a Prefeitura que não calculou corretamente os desdobramentos da flexibilização da doença e a deixou migrar para diversos bairros a  doença que era de “elite” agora chega nos setores mais pobres, contaminando famílias.  

O temor é uma constante nas ruas, que abriga gente que precisa trabalhar e inúmeras pessoas que estão ali simplesmente para se aglomerar. Uma imagem da feira livre do setor Garavelo viralizou pelo país, como exemplo do que não deve ser feito em momento crescente da curva da doença.   

A abertura prematura dos shoppings da cidade foi um dos erros mais chocantes. A subnotificação é outro problema apontado pela população, que não confia nos números se comparados com o que se vê nas famílias. “Acho que a realidade é bem maior que amarelo, estou com corona. Na UPA todos lá estavam com os mesmos sintomas e quase ninguém conseguiu fazer o teste. A realidade é bem diferente da estatística”, diz Karina Santos, que diz estar com a doença.  

No sábado (27) os sistemas oficiais de notificação registraram 2.249 casos na cidade. O município está atrás de Goiânia (6.126) e Rio Verde (3.983). Até 2 de junho, existiam 701 casos da doença em Aparecida. Do dia 3 de junho até 27 de junho, o número chegou a 2.221 – um aumento de 1520 casos, ou seja, 217%.

 

Doença devasta clínica de idosos no município

Na mesma proporção que a flexibilização ocorreu para o comércio, a morte bateu na porta das instituições beneficentes de Aparecida de Goiânia. Uma série de mortes de idosos na Clínica Silvestre Linares levou Aparecida de Goiânia para o noticiário nacional. 

O surto de Covid-19 se alastrou após a flexibilização proposta pela Prefeitura de Aparecida de Goiânia. Uma voluntária próxima da instituição, a jornalista Rândila de Paula, descreveu nas redes toda a angústia por ter que ao mesmo tempo lutar por vidas, enquanto muitos optam em aderir às aglomerações que tiram vidas.

Ela conhecia de perto as vítimas do asilo:  “Minha mãe por mais de 15 anos trabalhou na Clínica Silvestre Linares, um local que acolhe idosos, maioria abandonados pelas famílias, um local em que ela já até aprendeu tocar violão com um dos internos, local que meu pai por algumas vezes foi tocar sanfona para animar o pessoal e eles gostaram. Minha mãe sempre dizia que quando ficasse bem bem velhinha queria ficar lá porque ama demais aquele pessoal, mas é claro que não deixaria isso.

Os funcionários da clínica sempre trataram minha mãe com tanto amor, que fico boba, o ambiente lá é realmente muito agradável. De quem era pai de todo mundo a que sonha em ainda se casar com Michael Jackson, os sonhos dos internos são dos mais diversos.

2020 começou e surgiu esse vírus, sob muita pressão, muita mesmo viu, minha mãe pediu para afastá-la até passar o perigo desse vírus, em março o perigo não era tanto então por alguns dias minha mãe chorava, achava maldade termos feito ela sair de lá, mas conversamos que isso era por alguns meses e depois voltaríamos com serviço voluntário, até eu iria ajudar a cortar os cabelos, fazer barba e pintar as unhas dos internos toda semana, pronto, aí ela já ficou mais animada.

Mas durou pouco, de alguns dias para cá infelizmente o que eu tanto temia aconteceu, o vírus chegou na clínica e tanto colegas quando pacientes já sentiram o que é esse vírus de verdade, infelizmente nem todo mundo superou.

Aqui em casa, é motivo de muita tristeza porque não são números, são pessoas, pessoas simples e amorosas, e sentimos muito por essa situação acontecer ali naquele local onde a caridade e amor é o combustível pra fazer tudo funcionar.

Mas infelizmente, para outros tantos é só uma matéria que passou inclusive em rede nacional (Fala Brasil da Record) com a seguinte manchete: Vírus chega em Clínica de idosos em Aparecida de Goiânia, 6 idosos já morreram e 28 foram infectados, cerca de 50% dos funcionários já foram afastados por isso.

O nosso país é realmente da diversidade enquanto uns poucos cumprem quarentena e tomam cuidado certinho,  tem gente fazendo festa como se nada tivesse acontecendo, ou duvidando do efeito desse vírus em quem é mais vulnerável”.

Mayara Ferreira

Estagiário supervisionado pelo editor Jorge Borges

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