Goiás

Pesquisa da UFG avalia o trabalho pedagógico do ensino remoto em Goiás

Ensino "presencial na tela" prevaleceu durante fechamento das escolas públicas em Goiás

A prática do ensino nas escolas públicas brasileiras se deparou em 2020 com novos desafios a partir do fechamento das instituições, devido à pandemia. Antes marginais, as tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC), de uma hora para outra, com o ensino não presencial, tornaram-se centrais. Apesar da nova realidade, segundo pesquisa documental realizada pela UFG, o potencial das tecnologias e do ambiente virtual para a aprendizagem não foi explorado pelas escolas públicas de Goiás. Ao configurar um tipo de ensino “presencial na tela”, prevaleceram as atividades educacionais em que a interação entre professores e estudantes não era simultânea, em tempo real.

Coordenado pela professora da Faculdade de Educação (FE), Rosemara Lopes, a pesquisa fez a análise de 68 planos de estudo, 33 relatórios de professores, 19 projetos-político pedagógicos, 202 videoaulas e 798 vídeos e imagens diversas das redes públicas municipais e estaduais de ensino goianas. O estudo mapeou as tecnologias utilizadas, abordagens de ensino, atividades desenvolvidas e os conhecimentos envolvidos no trabalho de ensinar e aprender exclusivamente por meio de tecnologias digitais durante o Regime Especial de Aulas Não Presenciais (Reanp). 

Ensino remoto

“Os resultados mostraram que no ensino remoto foram mantidas atividades típicas do presencial”, afirma a professora Rosemara Lopes. De acordo com a pesquisadora, especificamente sobre os professores, os mais conservadores atribuíram à tecnologia digital o papel desempenhado pelo Datashow, ou seja, mudaram os meios, mas não as práticas. Os menos conservadores, por sua vez, utilizaram a tecnologia para fazer o que não era possível sem ela. Ainda segundo a pesquisadora, “salvo exceções, situações de aprendizagem de caráter investigativo, experimental e colaborativo não compuseram o trabalho pedagógico nas aulas não presenciais. O modus operandi do presencial foi mantido no não-presencial”.

Apesar de as metodologias utilizadas serem compatíveis com aquelas do ensino presencial, as atividades que propiciavam a interação simultânea, no mesmo momento, entre o professor e o aluno não foram as priorizadas, observou o estudo. “Prevaleceram as atividades assíncronas. Em termos de interação, o resultado mostra que foram desenvolvidas menos atividades em que o professor e o aluno interagem em tempo real”. De acordo com a pesquisa, as tecnologias como WhatsApp e Google Meet, por exemplo, foram utilizadas em ações que ocorriam simultaneamente e também em atividades disponibilizadas para serem acessadas de forma não simultânea. “No caso do Google Meet, supomos que isso se deve à gravação das aulas e disponibilização da então videoaula em canais do YouTube para acesso pelos alunos”, afirma a pesquisadora.

Tecnologias

De acordo com o estudo, a educação não foi presencial, mas também não foi exclusivamente tecnológica. As atividades de ensino ocorreram tanto com tecnologias digitais, quanto sem elas. Em termos quantitativos, a variedade de tecnologias utilizadas nos anos finais do ensino fundamental foi superior ao das utilizadas no ensino médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA). 

Nos anos finais do ensino fundamental, o recurso mais presente nos planos de estudo foi o YouTube, seguido pelo Google Sala de Aula, WhatsApp e Portal Net Escola. No ensino médio e na Educação de Jovens e Adultos (EJA), o YouTube se manteve como recurso mais utilizado nas atividades pedagógicas, seguido pelo Google Formulários e o livro didático. Tanto nos anos finais do ensino fundamental como no ensino médio e EJA, a atividade pedagógica mais recorrente dos planos de estudo foi a realização de atividades no caderno.

Assim como avalia a professora Rosemara Lopes, as tecnologias não têm o poder de mudar a forma do professor ensinar, nem a sua compreensão sobre a aprendizagem. “Para ensinar utilizando meios digitais, são necessários conhecimentos que vão além de saber ligar a máquina, baixar programas e aplicativos e manusear ferramentas de plataformas”, afirma. “Condições de uso e conhecimentos específicos são determinantes para o trabalho pedagógico”. 

Superação

A adaptação ao novo cenário pelas escolas e professores esbarrou em dificuldades estruturais, somadas aos desafios do trabalho em casa. “Quando se fala em infraestrutura, por exemplo, é preciso considerar que passamos do laboratório de Informática da escola ao celular, cujo uso é proibido por lei nos estados brasileiros ou permitido com restrições”, destaca a professora Rosemara. Especificamente sobre as condições dos alunos e professores, “o uso rudimentar das TDIC” é compreensível quando se leva em questão que muitos estão experimentando pela primeira vez o ambiente virtual, pontua a pesquisadora. “As dificuldades englobam o acesso à internet, a saúde do trabalhador, a falta de clareza sobre direitos de imagem e riscos de trabalhar com tecnologias de uso pessoal, entre outras”.

Pensar o ensino-aprendizagem com elementos que não faziam parte da trajetória da comunidade escolar foi de fato um desafio, conforme identificou o estudo a partir da avaliação dos projetos políticos-pedagógicos. “Ao fazer a transição do presencial para o virtual, ou simplesmente ensinar de modo não presencial, as dificuldades vivenciadas pelos professores sugerem que esse processo não foi tranquilo e as particularidades dos meios digitais na educação não foram percebidas, com o agravante de a casa ter se transformado no ambiente de trabalho”, afirma a professora Rosemara Lopes.

Segundo a pesquisadora, se, por um lado, os resultados mostram que não houve mudança pedagógica durante a suspensão das aulas presenciais, por outro, “ficou evidente o compromisso da comunidade escolar com os alunos e com a sociedade, pois constatamos que dificuldades existiram e elas não impediram o professor de continuar trabalhando”.

Apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), a pesquisa foi desenvolvida por uma equipe composta por professores do ensino superior e da educação básica em exercício em Goiânia, Rio Verde, Santa Helena e Jataí, e estudantes de pós-graduação, todos membros do Grupo de estudos e pesquisa Tecnologias Digitais e Formação de Professores (GTDIF), vinculado ao CNPq e à Faculdade de Educação da UFG.

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